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18 February 2010 @ 07:55
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Criado para o Capricho Fic

 (Insira o título)

O fantasma habitava aquele museu há muito tempo; quando buscava em sua memória, podia se lembrar dos dias em que era seu lar, uma bela casa senhorial. Agora, era apenas uma sombra pálida, onde centenas de pessoas caminhavam pelos corredores.
O fantasma se acostumara com os visitantes; a maioria não o perturbava – andavam apenas, apreciando os quadros antigos. De tempos em tempos, porém, apareciam visitantes diferentes – estes o viam, seus olhares divididos entre a surpresa e o medo. O fantasma se afastava desses; em algum momento de sua existência, ele percebera que não estava vivo – que sua carne atravessava as paredes, que as pessoas se arrepiavam quando ele tentava tocá-las. O fantasma não se importava; acostumara-se com sua eternidade solitária.
Foi quando ele a conheceu.
Ela era filha do novo curador do museu. Uma garota de nove anos, cheia de vida – algo que o fantasma não podia compreender -, e ela o via. Isso não o surpreendera; a maioria das crianças podia vê-lo. Mas ela continuara fitando-o, parada entre todos os visitantes apressados.
- Olá.
Ninguém nunca falara com ele. O fantasma se afastou – aquela garota o assustava.
A garota não se abalou. Sorriu, no próximo dia, quando seus caminhos se cruzaram na Ala Norte. Acenou-lhe, a despeito do olhar inquieto do pai, quando o viu na Ala Leste.
E vinte e nove dias depois de vê-la, o fantasma lhe respondeu.
- Olá.
Quando ela sorriu de volta, ele sentiu algo que já era quase lhe desconhecido – felicidade.
O fantasma, pela primeira vez, contava o tempo – ela sempre vinha visitá-lo às cinco horas, pouco depois do museu fechar. Ele pouco falava, só respondendo quando era necessário, mas ela não se importava – contava-lhe tudo.
Ela nunca parou de vê-lo, mesmo enquanto crescia; ele continuou, imutável, apenas observando-a se tornar uma bela moça e então uma bela mulher. Ele sentiu um formigamento desconfortável quando ela apareceu, certa tarde, um homem ao seu lado; havia um anel novo na mão dela que irritou o fantasma – e o homem não podia vê-lo. O fantasma não gostava dele, mas não saberia dizer a razão.
O fantasma os viu partir – e, pela primeira vez, desejou poder abandonar o museu. Desejou ter um corpo – e não ser apenas essa alma sem rumo – e seguir ao lado dela, abraçando-a, tocando-a como o outro fazia.
Aquele relacionamento não deu certo – ela voltou, dias depois, sozinha, e sorriu para ele. Também se tornou curadora do museu, igual a seu pai. Nas manhãs, ela se dedicava aos visitantes. Às tardes, ela o fazia companhia.
O fantasma se esqueceu da solidão.
Sessenta anos, cinco meses e doze dias depois de conhecê-la, o fantasma a viu partir; ela mudara – seu cabelo era grisalho, havia rugas em seu rosto, mas o sorriso – seu favorito - era o mesmo.
Ela fechou os olhos ao seu lado. Ele também fechou os seus. Quando os abriu, ela estava sorrindo, os dedos estendidos.
- Está na hora.
O fantasma apertou sua mão.
E então eles se foram, juntos.